Minha relação com a música é muito interessante. Funciona
como uma via de comunicação do coração. Sabe quando você quer entender o que
está sentindo e recorre a sonhos, ou a cartas do tarô? Para mim, a música
funciona melhor. E não passa pela razão. Ou seja, não é que eu fique prestando
atenção nas letras para ver se elas se encaixam nos meus sentimentos. As
canções vêm automaticamente até mim, caem no meu quintal. Às vezes só me dou
conta do que elas me dizem depois que já as ouvi milhões de vezes e que já sei
cantar e tocar de cor.
Por exemplo, vejam só: recentemente fiz uma viagem a
Londres, sozinha. Não era para ser assim, a viagem tinha sido programada para
dois. Mas a relação não durou e resolvi embarcar para um tempo comigo mesma.
Nessa época, descobri o novo disco da Norah Jones. Me agradou de cara, na
primeira ouvida. Comprei no dia da viagem. Quando cheguei em Londres, estava
viciada nele. Passei dias andando pela cidade com fones nos ouvidos, escutando
a trilha sonora eleita. A música
combinava com o momento. Não pude deixar de reparar nos outdoors espalhados
pela cidade propagandeando o álbum. Depois, quando decidi aprender a tocar a
faixa que eu mais gostava, procurei a letra na internet. E ela dizia assim: “Now
I’m feeling so left out, so I don’t care where I go, but I’m leaving... On my
way to paradise, a little voice says: don’t think twice and don’t look back if
you want things to change...”
Fiquei mais atenta e identifiquei outras situações
semelhantes. A canção que mais me tocou ultimamente no novo trabalho da Marisa
Monte foi “O que você quer saber de verdade...” . Insisto na explicação de que
só presto atenção na letra bem depois da minha paixão pela música. Nessa, as
palavras falam da busca da definição da sua questão mais importante, sugerindo
para isso o caminho da liberdade. Prestar atenção nos seus sentimentos. Nada
mais pertinente para mim, nesse momento. Não fui procurar essa música, nem
tinha dado bola para esse CD. Ela chegou
na minha caixa de e-mail, enviada por um amigo. Veio até mim, simples
assim!
E ainda nessa semana descobri uma musiquinha bem
simplesinha que resolvi tocar para meu professor de guitarra. Ele gostou, não
conhecia... E sabe o que dizia? Uma aprendiz de dança iniciante, insegura, e
um professor, que percebeu sua dificuldade e maneirou na condução: “Só sei
dançar com você, isso é o que o amor faz...”
Instintivamente, adoro música. Sempre adorei. Percebo
claramente que minha vida tem trilha sonora. E agora, consciente do que ela faz
por mim, peço licença e perdão pela falta de jeito: vou ali compor meu
repertório.